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Como o futebol feminino dos EUA se tornou uma potência

Publicado em: 03/09/2020

Como o futebol feminino dos EUA se tornou uma potência

A seleção dos Estados Unidos não tem encontrado muitas dificuldades até o momento na Copa do Mundo disputada na França. Em cinco partidas, o time comandado por Megan Rapinoe e Alex Morgan só venceu, fez 22 gols e sofreu apenas um, na vitória sobre a Espanha nas oitavas-de-final por 2 a 1.

Tal domínio não se explica apenas pela reunião de talentosas jogadoras da mesma geração. O desenvolvimento foi sustentável e sólido, geração a geração, e também motivado pela passagem de Pelé ao futebol norte-americano nos anos 1970.

- Eu era bem criança quando vi Pelé e Beckenbauer jogarem pelo Cosmos. Eles certamente me inspiraram a ser uma jogadora de futebol profissional. Em 1994, lembro de acompanhar os treinos da seleção brasileira na Copa do Mundo nos Estados Unidos. Zinho, Bebeto, Dunga,Romário. Eu ficava vendo cada chute a gol nos treinamentos. E eu estava no Rose Bowl, quando o Brasil foi campeão em cima da Itália. Eu adorava aquela seleção - disse Brandi Chastain, capitã da seleção americana campeã na Copa de 1999.


Brandi foi considerada a heroína do título de 1999, já que converteu a última cobrança de pênaltis da final contra a China no mesmo Rose Bowl, onde o Brasil foi tetra em 1994.

Ainda assim, mais marcante do que o gol, foi sua comemoração depois que a bola estufou as redes. Brandi tirou a camisa e vibrou com um sutiã esportivo à mostra, o que provocou as mais diversas reações, por ser uma mulher mostrando seu corpo e suas emoções.

Hoje, a coragem e o gesto precursor da capitã encontram eco em um time liderado pela ativista Megan Rapinoe e diversas outras atletas que buscam melhores condições de pagamentos e respeito ao futebol feminino. No entanto, à época, Brandi garante que o que fez foi apenas deixar suas emoções falarem mais alto.

- Eu não planejei antes como iria comemorar. A carga de emoção foi tão grande que só consegui tirar a camisa e gritar. Foi uma felicidade muito grande. Lembro de caminhar antes para a bola e pensar que aquele gol nos daria o título, mas não sabia que teria aquela reação - contou a ex-jogadora.

Brandi fez parte de uma geração vencedora que se beneficiou de um processo iniciado muito antes. Em 1972, uma lei federal americana proibiu organizações que recebiam verbas do governo de discriminar pessoas por qualquer motivo de gênero. Isso obrigou escolas e universidades a criar times femininos de soccer, o futebol.

Foi aberto então um espaço antes dominado por homens. Pois a conquista de 99 impulsionou a prática de jovens no esporte por todo o país. Naquele ano, cerca de 250 mil meninas jogavam nos times da high school (ensino médio). Hoje, esse número alcança 375 mil garotas, um aumento de 50% no total de praticantes.

A reportagem do Esporte Espetacular visitou o time de futebol feminino da St. Paul Catholic High School na cidadezinha de Bristol, em Connecticut, que disputa torneios estaduais e costuma revelar talentos para grandes universidades americanas.


Inspiração em heroínas

O técnico dessas meninas é um brasileiro, Flávio Pereira, de 57 anos. Ele chegou aos Estados Unidos no fim da década de 80 e teve boas oportunidades como técnico no boom das clínicas de futebol da época, também promovidas nos embalos de outro ídolo do esporte americano.

- Eu via as garotas, por exemplo, tentando um dia ser como a Mia Hamm (considerada a melhor jogadora do mundo na época). E assim mais e mais meninas começaram a jogar futebol. Com divulgação, imprensa, filmes e programas de TV, a coisa foi crescendo - lembra Flávio.

Isso criou uma base vasta de atletas de alto nível por todo o país. Uma menina precisa ser muito boa para se destacar na high school, e aí o desafio passa a ser conseguir uma bolsa de estudos jogando por uma boa universidade, para só a partir de uma formação acadêmica entrar na liga profissional de futebol. Um processo extremamente seletivo, mas que resulta em um grupo de elite no futebol feminino mundial.

Segundo dados mais recentes da FIFA, os Estados Unidos abrigam cerca de um milhão e meio de garotas de até 20 anos de idade praticando futebol. Só nesta Copa do Mundo na França, 72 atletas jogam em times do país.

- Todo o processo já está começando mais cedo por aqui. Os técnicos das universidades que recrutam já estão de olho nas meninas com até 15 anos, elas se desenvolvem muito rapidamente e precisam se preparar muito porque o nível de competição é alto e existe muitas jovens talentosas. É cada vez mais difícil chegar ao profissional - disse o técnico Flávio Pereira.

Com tanta força na base e entrelaçando quantidade e qualidade de jovens jogadoras geração à geração, os Estados Unidos dão exemplo de como desenvolver o futebol feminino através da prática de crianças envolvendo o sistema educacional. Assim, fica a expectativa de que ainda veremos muitas seleções americanas de alto nível nas próximas Copas. Sementes não param de ser plantadas para isso.


Fonte: Esporte Espetacular, por Camilo Pinheiro Machado e Guilherme Roseguini